Porque o instante existe – parte 3 é a continuação do relato (parte final) dos eventos que antecedem o ingresso do autor na Oficina Literária Paulo Caldas, no Recife até a publicação da coletânea de contos com o nome que homenageia o poema de Cecília Meireles, em comemoração aos treze anos da referida oficina.
Porque o instante existe – parte 3
Durante a etapa de revisão do texto diagramado da coletânea “Porque o Instante Existe”, novas experiências, novos aprendizados. Uma colega comentou:
— Achei o meu texto baixo astral.
Um veterano na escrita ponderou que o sublime pode estar mesmo na tristeza e nas tragédias e citou a Ilíada, de Homero. Outra colega agradeceu por não existirem apenas escritos açucarados. Fui ver do que se tratava.
Li o texto da colega, escritora experiente, por quem desenvolvi grande estima. Falava da contemporaneidade virtual, artificial, habitada por robôs, que assusta, alimenta a miopia moral, desumaniza e nos distancia do ser e existir concretos – afasta-nos da criança que sonhava e com a qual sonhamos, talvez um efeito que nos aproxima do sentimento de morte.
Li outra vez o referido texto. Escrita poética, rica em intertextualidades, a coragem de falar sobre os nossos temores e um clamor para viver o presente e resgatar o que as crianças têm de melhor – a capacidade de se encantar com o presente, a coragem de serem autênticas e a vontade de viver com paixão e sem medos a vida inteira que ainda terão pela frente, qualquer que seja o tempo em que estejam vivendo, sempre tempo presente e ainda que em meio às guerras e num universo dominado por máquinas. Também tenho medo desse mundo – prefiro pisar num paraíso pouco habitado, seguro e tranquilo, o mais próximo daquele que Deus criou – mas é nele em que vivo hoje, no agora.
Após a leitura do texto da estimada colega estremeci e ainda por cima descobri o quão desatualizado estou nas tecnologias atuais: o que danado são “Metaverso” e “UX Writing”? Desconfio que a colega comprou um livro que é a última palavra no ensino das técnicas literárias e guardou o segredo só para ela. Metaverso! UX Wirting! Que inveja me deu!
Se a estimada escritora hesitava, apesar de escrever um texto inteligente, com estilo próprio, dotado de humor e cheio de humanidade e belezas – não obstante problematizar a pulsão mórbida, o que pensar do texto que apresentei para publicação na coletânea? Não quero nem pensar.

Uma outra colega, poetisa, também não parecia satisfeita, pensou até em retirar o texto proposto da coletânea. Ouvir a leitura dos textos dessa colega em nossos encontros e receber as contribuições dela aos nossos escritos é como sorver os potes de mel fabricados pelas abelhas. Com voz serena, compartilha poesias e sem perder a ternura critica os nossos escritos de forma que nem sentimos a dor, pois nos ensina da forma mais doce. Uma autêntica professora.
Diria que é um conto de atmosfera, o segundo a que me refiro. De início, uma narrativa com clima um tanto nebuloso, que fala da passagem do tempo, dos fantasmas e medos que nos afligem, mas que a partir de uma decisão que exige coragem conduzirá o personagem a um tempo em que as águas revoltas vão ficando para trás, as nuvens se dissiparão e o sol fará brilhar nossas vidas, enchendo-nos de vontade de continuar a viver, só que desta vez navegando em águas tranquilas, numa atmosfera ensolarada. Logo, é um texto sobre mudança, adaptação e esperança, apesar de problematizar a dor. De quebra, aprendi uma forma de tratar a passagem do tempo no texto.
Finda a leitura do segundo texto, duplo estremecimento. Ainda haveria tempo de eu apagar o meu conto enviado para a coletânea?
Depois do choque das incertezas, procurei me acalmar. Lembrei de Horácio Quiroga, no Decálogo do Perfeito Contista: Nossa arte é um cume inatingível. A julgar pelo ensinamento, não é razão para não me esforçar e se um dia eu tiver de chegar ao pico do meu Everest, há de acontecer sem que eu sequer perceba. Enquanto isso, aprecio a viagem e a aventura.
O lançamento da coletânea Porque o instante existe com o meu primeiro texto na nova oficina literária da qual participo ainda não ocorreu – está no forno, mas sou grato por fazer parte desse grupo sobre o qual escrevo – que completa 13 anos, um número da sorte. Um privilégio.
Não bastassem as lições aprendidas a cada encontro e o convívio com pessoas inteligentes e apaixonadas pela escrita e pela vida, aprendi que ainda não cheguei na fase adulta, sequer na adolescência. E pensando bem, talvez seja melhor não querer crescer tão rápido, relaxar e aproveitar cada momento dessa infância despreocupada, sem medo de gozar cada instante do convívio criativo e escrever pelo simples prazer da escrita, que faz nossas vidas mais belas e felizes.
Esta é uma jornada para apreciar cada momento e cada passo, de se encantar com o que acontece ao redor – igual a uma criança, sem esquecer de também olhar para baixo e por que não lá no cume alto, que hoje parece tão distante. Quem sabe, um dia!
Adendo:
A propósito: dia 15 de outubro é o dia do Professor, das professoras e professores – inclusive os de escrita e literatura –, a quem homenageio e registro o meu agradecimento. Uma civilização não se faz sem professores, muito menos uma civilização humanizada. Elas e eles desde sempre fazem a parte que lhes cabe nessa jornada. Façamos nós a nossa parte, para que sejam efetivamente reconhecidos.
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