O texto a seguir tem como objeto a negação da ciência, causas e consequências, tema central do livro Contra a Realidade.

Contra a Realidade discute o negacionismo a partir da análise de temas fundamentais em que a negação se faz presente e produz efeitos destrutivos.
Tópicos
Dados gerais:
Os autores do livro são:
Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP; presidente do Instituto Questão de Ciência; professora convidada da FGV e na Universidade de Columbia (EUA); autora de livros; e escreve para jornais e revistas.
Carlos Orsi, jornalista e escritor, fundador do Instituto Questão de Ciência. O livro tem 185 páginas, é composto de nove capítulos, incluindo uma introdução denominada “O inimigo é a realidade” e um Epílogo. A edição é de 2021. O tema central é a negação da ciência, causas e consequências.
Introdução:
Na introdução, os autores diferenciam “fato estabelecido” (dado bruto da realidade) de “consenso científico” (teoria que a comunidade de especialistas formulou e refinou). Ressaltam que os consensos científicos são continuamente desafiados e o conhecimento assim evolui, naturalmente.
Entretanto, o negacionismo científico critica o consenso científico com uma fundamentação frágil ou inexistente e insiste na posição adotada, mesmo depois de seus argumentos serem refutados.
Muitas vezes a negação da realidade está relacionada a grupos de interesses, tendências ideológicas e comunidades com forte senso de identidade. Além disso, não raramente os negacionistas recorrem a teorias da conspiração, perversão das ciências, manipulação de dados e informações e até mesmo fraudes.
Galileu Galilei:
No capítulo intitulado “Eppur si mueve” o episódio de Galileu Galilei é tido como “exemplar na história dos negacionismos”.
Em resumo, o criacionismo, o terraplanismo e respectivas personagens são abordados, mediante a apresentação de fatos históricos, que vão desde o século XIV até os dias atuais, inclusive quanto às relações com as crenças e ideologias de natureza religiosa e não obstante as evidências modernas das tecnologias de satélites, GPS, etc.
Inimigos de Darvin:
Neste capítulo ganha relevo o negacionismo relacionado ao criacionismo. O capítulo resgata elementos representativos da evolução histórica do tema e mais uma vez se observa o papel de grupos religiosos nesse tipo de negacionismo.
Segundo os autores, “teorias científicas não são hipóteses” e a evolução “é um fato baseado em observação histórica” – não tem natureza preditiva.
Eles apresentam estratégias e práticas negacionistas – que têm o fim de semear a dúvida e questionar o conhecimento científico, muitas das quais adotadas por instituições criadas com propósitos políticos ou econômicos.

A Marca do Cigarro:
Considero “A Marca do cigarro” um dos melhores e mais bem fundamentados capítulos do livro, juntamente com os capítulos seguintes sobre vacinas e aquecimento global.
O capítulo aborda a evolução do conhecimento sobre a associação entre o fumo e o câncer, com farta evidenciação. Além disso, o leitor aprenderá o que é causa e correlação, essencial para uma melhor compreensão sobre causalidade das doenças.
No caso do hábito de fumar, os efeitos tendem a só se manifestar décadas depois. Consequentemente, é mais difícil o estabelecimento das relações de causalidade. Além disso, a complexidade das relações causais favorece a controvérsia.
Nesse ínterim, entram os mercenários contratados pelas grandes corporações, para questionar e pôr em dúvida o conhecimento científico.
Outro fator a considerar é a atitude de cobertura “equilibrada” pela mídia. Essa também contribui para a perpetuação do problema, pois trata indevidamente os questionamentos de aspectos pontuais e a farta evidenciação acumulada historicamente como se ambos tivessem pesos iguais. Então, surge uma falsa percepção de que haveria uma “polêmica legítima”.

Vacinação:
Em seguida, no capítulo sobre vacinação (“Amigos de vírus e bactérias”), o leitor obtém uma visão geral sobre evolução das vacinas, a segurança proporcionada por elas e o impacto dos imunógenos na redução das mortalidades por diferentes tipos de doenças.
Os autores evidenciam que os movimentos antivacinas são antigos, mas evoluíram e na atualidade causam graves prejuízos à saúde pública. Para isso, há a contribuição do sensacionalismo dos meios de comunicação.
Merece destaque o episódio de um artigo publicado por um médico na revista The Lancet em 1988. O autor do referido artigo associou a vacinação contra caxumba, rubéola e sarampo (MMR) com os sintomas de autismo. Posteriormente investigações provaram que houve uma fraude. Basicamente, o médico fora contratado por um advogado, no intuito de processar o fabricante da vacina.
Conforme apurado, o médico foi condenado por fraude, a revista retratou o artigo (“despublicou”) e a licença do médico foi cassada. Porém, até que tudo fosse provado, celebridades e movimentos antivacinas utilizaram o artigo (e ainda usam, junto a desinformados) para atacar a vacinação.
Como resultado da fraude, houve graves efeitos para a saúde pública, especialmente por induzir quedas nas coberturas vacinais e subsequentes surtos de doenças, que causaram a mortalidade de muitas crianças.
Aquecimento Global:
Ao contrário da questão dos cigarros que já não tem a mesma gravidade que teve antes, o aquecimento global é tratado em “O calor do momento”. Contudo, há semelhanças entre os negacionistas dos malefícios do fumo e dos movimentos antivacinas com os negacionistas do aquecimento global. Isso decorre da ação humana consistente em estratégias de gerar dúvidas e controvérsias.
As grandes corporações com interesses econômicos na questão criam e patrocinam instituições dispostas a negar a relação entre a ação humana e o aquecimento do planeta. Não obstante a relação causal ter como fundamento inúmeras evidências científicas e históricas, tudo isso analisado por um painel com centenas de cientistas de todo o mundo, ainda assim os setores interessados negam o problema.
Apesar de evidências cada vez mais claras do aquecimento global, até mesmo um Nobel de Economia defendeu que não ser necessário fazer nada para deter as emissões de carbono. Em suma, ele alegava que os mecanismos de mercado equacionariam o problema.
Por fim, merecem destaque a difamação e ameaças contra cientistas e o recurso às teorias da conspiração, enquanto armas para atacar as ciências, além da “grave complacência midiática”.

Transgênicos:
O tratamento da temática dos transgênicos em “Os genes de quem?” é o único capítulo para o qual apresento ressalvas.
Os autores apresentam bons argumentos favoráveis aos organismos geneticamente modificados, quanto à segurança para a saúde dos consumidores e no tocante aos benefícios decorrentes da maior eficiência, menor emissão de carbono, menor consumo de água, menor uso de área de plantio e redução no uso de pesticidas.
Entretanto, a temática dos transgênicos merece uma perspectiva de análise mais abrangente e que ao leitor pareça menos parcial.
Considero inadequada a afirmação dos autores que “O câncer é uma soma de fatores, um jogo de azar […]” (grifos nossos).
Ao falarem em “jogo de azar” eles correm o risco de fornecer combustível para os negacionistas, pois tais pessoas e grupos argumentam não ser possível provar a associação entre câncer e fumo ou entre ação antrópica e aquecimento global. Afinal, seria tudo “um jogo de azar”, dependendo inteiramente do acaso. Admitindo tal alegação, não faria sentido apontar uma causa – o que, definitivamente, não corresponde à realidade.
Porém, o mais importante é a existência de outros fatores que merecem melhor análise e discussão. Uma lista não exaustiva inclui fatores socioeconômicos, político-ideológicos, estratégicos, ambientais e ecológicos.
Tal ressalva será discutida em uma postagem específica sobre o assunto, complementar à resenha sobre a negação da ciência, causas e consequências – do livro Contra a realidade.
Holocausto:
No capítulo “Holocausto”, os autores apontam o caráter perverso da negação do genocídio ocorrido na Segunda Guerra Mundial, não raramente com argumentos apoiados por professores e determinados estudiosos.
Segundo eles, as estruturas falaciosas utilizadas são similares àquelas dos outros negacionismos. Aqui os autores são enfáticos: “Sem contraponto, as mentiras crescem, ganham força” (grifo nosso) e “Não se pode relativizar a verdade”, mesmo que ela seja dolorosa.
Epílogo:
Por fim, no Epílogo, os autores concluem que é preciso compreender as causas do negacionismo (ver post que trata a questão).
Os negacionistas procuram gerar confusão no debate, paralisar a tomada de decisões, embaraçar as políticas públicas, fazer atitudes irracionais parecerem razoáveis aos olhos dos incautos e fomentar a consolidação de grupos coesos e ideologicamente solidários em torno de certas causas compartilhadas.
Com efeito, a melhor maneira de enfrentar o problema é evitar que as pessoas caiam na armadilha, já que depois será mais difícil libertá-las, na opinião deles.
Conclusão sobre a leitura de Contra a realidade: A negação da ciência, causas e consequências.
Concluo por recomendar a leitura de “Contra a Realidade: A negação da ciência, causas e consequências”, considerando as credenciais dos autores e as virtudes do livro, no qual tive acesso a muitas informações e conhecimentos novos, veiculados mediante uma escrita clara e que fisga o leitor. Fica a sugestão para os autores terem em conta as ressalvas apresentadas aqui, em edições futuras.
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