O texto a seguir detalha ressalvas apresentadas na resenha crítica do livro Contra a Realidade, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi. O objeto desse é a negação da ciência, causas e consequências – transgênicos, tema de um capítulo.
A negação da ciência, causas e consequências – Transgênicos
Em um post anterior apresentamos a resenha do livro Contra a Realidade: A negação da ciência, suas causas e consequências. Trata-se da primeira edição (Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2021. 185p.). Os autores do referido livro discutem o negacionismo a partir da análise de temas fundamentais em que a negação está presente.
Entretanto, na referida resenha fizemos ressalva ao capítulo que trata da temática dos transgênicos, a qual detalharemos aqui.

Ressalva ao texto que trata dos transgênicos
Como mencionamos, explicaremos a ressalva sobre o capítulo que trata da temática dos transgênicos. A opinião é que o referido capítulo merece uma perspectiva de análise mais abrangente e que ao leitor pareça menos parcial.
Consideramos inadequada a afirmação dos autores que “O câncer é uma soma de fatores, um jogo de azar […]” (grifos nossos).
A razão é que, ao falarem em “jogo de azar”, eles correm o risco de fornecer combustível para os negacionistas, pois tais pessoas e grupos argumentam não ser possível provar a associação entre câncer e fumo ou entre ação antrópica e aquecimento global.
Afinal, seria tudo “um jogo de azar”, dependendo inteiramente do acaso. Admitindo tal alegação, não faria sentido apontar uma causa – o que, definitivamente, não corresponde à realidade.
Porém, o mais importante é a existência de outros fatores que merecem melhor análise e discussão. Uma lista não exaustiva inclui fatores socioeconômicos, político-ideológicos, estratégicos, ambientais e ecológicos.
Em seguida, serão explicadas as ressalvas.
Razões da ressalva ao texto que trata da negação da ciência, causas e consequências – transgênicos
Em primeiro lugar, numa lista não exaustiva, há fatores pouco ou não discutidos no livro e que cabe considerar na perspectiva de análise dos transgênicos, conforme relacionados a seguir:
Socioeconômicos:
Citamos a agricultura familiar e a permanência das famílias na terra e fora dos grandes centros urbanos;
Político-ideológicos:
Dentre estes, a legitimidade da escolha de consumir produtos orgânicos e não transgênicos;
Estratégicos:
Deveríamos aceitar os riscos da dependência, eventualmente exclusiva, de um limitado número de tipos de alimentos e das tecnologias de propriedade de grandes corporações estrangeiras ou mesmo nacionais?
Aspectos ambientais e ecológicos:
São exemplos a importância do uso de sistemas agroflorestais ou permacultura na recuperação de áreas seriamente degradadas pelas práticas agrícolas tradicionais – que muitas vezes causam sérios impactos ambientais e socioeconômicos nas regiões afetadas.
Esses e outros fatores merecem abordagem abrangente e suficiente, tendo em vista as consequências potenciais de ignorá-los na discussão. Refiro-me ao princípio da precaução, do Direito.
Em outras palavras, além dos benefícios, há muitos riscos que não podem ser ignorados. Senti falta disso tudo no livro.
Logo, ainda que reconheçamos os argumentos sobre os benefícios dos transgênicos, relacionados no livro, isso não implica em minimizar, detratar, excluir e/ou negar a importância de soluções alternativas.
Também não podemos deixar de dar a devida importância ao fomento da preservação da variabilidade genética nas diferentes localidades, regiões e países. Tal variabilidade, na prática, pode ser afetada pela política de transgênicos.
Também não podemos olvidar a legitimidade do anseio de consumir produtos orgânicos, cultivados livres de “agrotóxicos” e adubos químicos.
E, tudo isso, ainda que admitamos serem as soluções em comento menos eficientes do que os transgênicos, o que não necessariamente é verdade, a depender do contexto.

Não podemos incorrer nos vícios das análises dos negacionistas
Não parece apropriado considerar que aspectos econômicos ou de eficiência (inclusive de carbono) são os únicos ou principais referenciais para a perspectiva de análise da questão dos organismos geneticamente modificados.
Do contrário, há o risco de adotar atitude semelhante ao economista Nobel de Economia que os autores citam no próprio livro “Contra a Realidade”, o qual defendia que os mecanismos de mercado seriam suficientes para solucionar o problema do aquecimento global.
Contudo, o tempo passou e os problemas do aquecimento global só se agravaram. Devido à inércia e ações contrárias, os problemas estão cada vez mais graves e os custos de solução tendem a ser crescentes.
A depender das perspectivas de análise nos âmbitos político e econômico predominantes na atualidade, existe o risco de ignorar (ou até mesmo negar) problemas de alta relevância, ou de adiar a solução deles, tal qual fizeram os defensores da indústria do tabaco.
Certamente não é essa a ideia que move as análises em A Morte da verdade.
Riscos de dependência tecnológica
Cabe lembrar, também, a importância de não dissociar o uso abrangente de transgênicos da ideia de dependência tecnológica e das variedades de plantas (ou animais) que a indústria fornece.
É possível recorrer a um exemplo de um setor industrial que utiliza tecnologias avançadas, como é o caso das vacinas. Durante a pandemia de Covid-19 vimos que os poucos grandes laboratórios produtores de vacinas contra Covid-19 ditaram as regras (e os preços) de quem recebeu ou deixou de receber as vacinas, nas quantidades necessárias e no tempo certo, quando receberam e a que preço.
Muitos países pobres não podiam e continuaram sem poder pagar os altos custos das vacinas de tecnologias avançadas e não têm poder de barganha.
E mesmo em países que receberam as vacinas não é possível controlar adequadamente os danos de uma pandemia se determinadas populações vulneráveis permanecerem desassistidas, mesmo que sejam pessoas que vivem em outros países. Nesse sentido, lembramos o caso da reintrodução do sarampo no Brasil, por intermédio de imigrantes venezuelanos, em Roraima.
Além disso, também é bom lembrar que a dependência da batata levou à mortalidade de 500 mil a um milhão e meio de pessoas na Irlanda, no século XIX, devido à fome, com posterior emigração de milhares de pessoas para outros países, o que na época ocasionou, também, inúmeros outros problemas, em escala mundial.
Mesmo que outros fatores socioeconômicos e políticos sejam determinantes em tais desastres humanitários, não é prudente dissociar o planejamento e o resultado da produção agrícola dos fatores referidos anteriormente.
Conclusão
Como resultado da análise crítica do capítulo sobre transgênicos, é possível inferir que, por melhores que sejam os transgênicos, não é prudente depender deles além de certa medida e ignorar os riscos associados, descartando alternativas em princípio menos econômicas ou eficientes.
Em última análise, quanto maior a dependência relativa de determinado alimento ou produto, maiores riscos corremos todos nós. Além disso, maiores tenderão a ser os impactos decorrentes de determinadas ameaças, conforme as vulnerabilidades.
Enfim, há muitos aspectos essenciais para uma discussão bem fundamentada e equilibrada sobre os organismos geneticamente modificados. Tais fatores não podem ser desprezados ou tratados como acessórios. Ainda mais se pretendemos combater o negacionismo.
Em conclusão, é por essas razões anteriormente elencadas que consideramos parciais e insuficientes as análises presentes no capítulo sobre organismos geneticamente modificados do livro “Contra a Realidade”.
Por fim, deixo a sugestão de que os autores tenham em conta tais considerações, em futuras revisões do livro. Ressalto a minha satisfação e avaliação positiva que fiz da obra, a qual recomendo, na qualidade de leitor.
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