Quietude de um mosteiro – conto de Paulo Caldas, fala sobre um Recife dos anos 1960 e 1970 que não volta mais.
Quietude de um Mosteiro
Autor: Paulo Caldas.
O vulto de Jane foi visto por Márcio através da vitrine da Sloper: cabelos longos e corpo sinuoso. Esperou que ela saísse e a seguiu de longe. Atravessou a Rua da Palma, Avenida Guararapes. Jane se postou na fila do ônibus elétrico de Casa Amarela, na calçada dos Correios. Ele se encostou junto da cadeira de um engraxate de onde a viu ocupar o lugar na quinta janela. Apressado, comprou um buquê de margaridas na florista ambulante e esbarrando num e noutro aproximou-se e conseguiu entregar as flores no momento em que o ônibus deu partida.
Daquela segunda-feira em diante, começou a espreitar os mesmos lugares com esperança de encontrá-la: não é possível que aquele broto não apareça de novo. Do outro lado da Rua, na loja de discos Ruby, encosta a bolsa com amostras grátis sobre o balcão e ouve os sucessos no momento: “quero que você me aqueça neste inverno”.
A passagem de Jane pelo Quem-me-quer da Rua do Sol iluminou o momento. É ela.
— Faz tempo que esperava encontrar você.
— Ah, que surpresa, você é o rapaz das flores.
Sorvetes na Botiginha, musicais e aventuras de um tal 007 nas sessões bossa jovem do São Luiz, passeios de mãos dadas no Parque 13 de Maio e até que enfim uma ida à Praia do Carmo. Ela de biquíni é bárbara.
No trabalho, Márcio dá saltos na carreira. O Laboratório Brandão ia de vento em popa e até lhe dera um Fusquinha do ano, inclusive nos finais de semana. Desde a apresentação, as famílias celebram os eventos em grupo: Natal, Carnaval, aniversários. A perspectiva do casamento se torna ainda mais sólida. Em seis de maio do ano seguinte, na Matriz da Harmonia, o Padre Jaime oficializa a cerimônia, embora sem véu e grinalda.
Com a chegada de Nell, as despesas aumentam a olhos vistos e um emprego para Jane amenizou o peso do orçamento. Analisar cadastros de crédito na Fininvest não foi difícil para ela, até porque após o ginásio, concluíra o Curso Técnico de Contabilidade.
O desgaste natural do tempo, no entanto, afetou também a relação do casal e fez com que os finais de semana ficassem restritos a programas de TV para ela e jogo de cartas com os vizinhos para ele. As jogatinas de Márcio se prolongaram em jornadas noturnas e enfraqueceram o romance, haja vista um contato noturno com Suely, uma dançarina do Teatro Marrocos, também viciada em apostas no Cassino do Pina. Do lado de Jane os bigus diários concedidos por Natanael, solteirão e gerente da financeira, começaram a incomodar o juízo de Márcio.
Naquela altura Neel completara três anos. A partir de então, os episódios de maus-tratos e ciúme aumentaram. As agressões começam de forma verbal, depois física. Márcio agora está convencido de que Jane está saindo com o gerente sob o pretexto de cumprir horas extras para aumentar a renda familiar.
Por fim, Jane não aguenta mais, se divorcia e obtém a guarda da filha. Contudo, Márcio começa a persegui-la. Ela consegue uma ordem judicial protetiva, até que, por fim, após um espancamento em público, ele é preso.

Certa tarde, logo após a condenação e encarceramento dele, pega a pequena Nell na creche e a leva para a festa de aniversário de uma amiguinha. Jane volta sozinha para casa, ansiando por duas ou três horas de paz e quietude de mosteiro, que não tem há tempos. Quem sabe eu tire um cochilo.
Ela acusa o incômodo de uma pontada no lado esquerdo e coloca mão sobre o peito na hora que entra em casa. Jane não consegue distinguir o que seria e revela a si mesma que está apena nervosa, consequência dos cinco anos de inferno com aquele canalha. O que mais poderia ser? Ele está atrás das grades, afinal.
Antes de tirar o cochilo, decide tomar uma xícara de chá de camomila. Preciso me acalmar, e assistir ao noticiário. Da cozinha ouve a chamada do Jornal das Três:
“Nesta manhã, três homens fugiram da cadeia e mataram um guarda durante a fuga. Dois dos três bandidos foram recapturados quase imediatamente, mas o terceiro ainda não foi encontrado”. Nenhum dos prisioneiros é identificado pelo nome, mas Jane, de repente, desconfia que um deles seja Márcio.
O som do pisar nos degraus dá o ritmo no bater do coração de Jane. Os olhos fixos nas sandálias repousadas sobre o tapete obedecem ao medo de olhar para cima até que, o aroma: Phebo… Num instante rebelde virou a cabeça.
— Márcio o que faz aqui?
Blazer marrom sobre a calça bege, camisa azul claro, rosto barbeado, cabelos alinhados num penteado impecável.
— Voltei para seus braços, amada amante. Como pode? É a força do amor, como ficar longe do sol que outrora brilhou em minha vida: quero que você me aqueça neste inverno…
Estática, Jane o observa de cima aos pés. Aquele sorriso possui o brilho de antes, até o buquê, agora seguro na mão direita e abrigado junto ao peito esquerdo, traz as mesmas flores.
— Receba as flores que lhe dou e em cada flor um beijo meu!
— Márcio Fontes Rios Simões Belo de Lima Braga! O que significa isso? Como pode ser esta súbita transformação?
— Revivamos o passado, amor de minha vida, os anjos do bem estão em minha companhia. Jane que cheiro é este que vem da cozinha. Já sei: chá de camomila.
— Sim, pretendia tomar uma xícara agora.
— A quantidade dá pra nós dois?
— Imagino que sim, vou trazer uma bandeja.
Ela se afasta, vai até a cozinha. Em frente ao fogão acrescenta ervas ao líquido fervente.
— Levo num instante, querido.
O som da TV toma conta do ambiente. A voz do locutor repete a notícia da fuga dos presidiários e acrescenta: “O terceiro foragido, Márcio Fontes Rios Simões Belo de Lima Braga, depois de intensa perseguição, foi alvejado ao reagir à ação policial.
Quietude de um mosteiro – conto de Paulo Caldas: Texto publicado com a permissão do autor, pelo qual se registra o agradecimento.
Notas:
O conto Quietude de um Mosteiro, do escritor Paulo Caldas – que gentilmente permitiu a publicação no Blog Literatura e Propósito – foi objeto de trabalho num dos encontros presenciais da Oficina Literária Paulo Caldas em 2022 (em que ele é tutor), realizado no Clube Alemão, no Recife.
Observe-se a intertextualidade e a riqueza em termos e gírias dos anos 1960 a 1970, além da multiplicidade de referências a elementos, locais e costumes do Recife no referido período – a exemplo dos ônibus elétricos e da Sloper. Além disso, o nome completo do personagem será reconhecido pelos participantes da Oficina Literária.
Quanto ao “Quem-me-quer da Rua do Sol”, para quem não sabe, era “A mureta na calçada onde a gente sentava para cubar o movimento“, nas palavras de Paulo Caldas. Um adendo: “cubar” é o “ato de observar, prestar atenção, brechar, ficar na espreita” (www.dicionarioinformal.com.br).
A rua do Sol fica nas margens do Rio Capibaribe – do lado oposto da rua da Aurora, no centro do Recife. Os Correios e o Cinema São Luiz estão localizados nas proximidades dessas ruas, em lados opostos.
Quietude de um Mosteiro evoca a saudade do Recife de um tempo que não volta mais.
Na foto, o Mosteiro de São Bento é visto em segundo plano, abaixo do trecho de mar que separa Olinda do Recife. Observa-se o Seminário de Olinda em primeiro plano, além de visão posterior da Catedral da Sé (à direita) e parte do Convento de São Francisco (à esquerda)
Saiba mais sobre a Oficina Literária do autor do conto: https://literaturaeproposito.com/escrita-cafe-e-uma-pitada-de-ironia/
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